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António Justo: Despertar o interesse das Crianças pela Leitura

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Seguir o Exemplo dos Judeus

O ensino em família é essencial para o desenvolvimento da criança. O melhor exemplo de fomento poderia encontrar-se nas famílias judaicas, onde os pais, desde muito cedo, se dedicam aos filhos promovendo as suas competências intelectuais. Também por isso, têm tanto sucesso! Por detrás dos grandes inventos e dos mais variados conceitos sociais está, muitas vezes, a cabeça dum judeu (1).

A família é o melhor meio para se criar hábitos. Um pai ou uma mãe que passa todos os seus tempos livres à frente da televisão é mau exemplo para a formação dos filhos. Naturalmente, um dia de trabalho duro na fábrica só convida o pai ou a mãe a estender-se no sofá e a comprazer-se num mundo mais variado da TV.

Pior ainda quando a televisão se torna em ama de bebé. A TV, nos primeiros anos de vida e o seu demasiado consumo durante a infância e adolescência, impede o desenvolvimento da capacidade de fantasia, dado ser uma sequência contínua de imagens em catadupa sem espaços livres para a própria imaginação. É um preservativo contra a leitura.

O pai e a mãe conscientes, usam no mínimo a TV e começam já muito cedo a possibilitar à criança o apalpar, o observar e folhear livros de imagens. A percepção do livro e da vida começa pela imagem, pelo ouvido e pelo tacto. A descoberta e desenvolvimento do prazer nasce nas imagens, no apalpar e folhear. Se observarmos o comportamento da criança nos primeiros anos de vida verificaremos que ela começa por provar o livro, por meter o brinquedo na boca; depois vem o momento de fixar-se longamente nas imagens e o exercício dos dedos finos no esfolhear das páginas… todos os sentidos são envolvidos na aprendizagem.

A mãe ou o pai, ao ver as imagens com a criança e ao trocar impressões (ou representar) sobre as cores, sobre as formas e imagens ou sobre a leitura, estimula o contacto gratificante da criança com este mundo.

A criança brinca e movimenta-se no mundo emocional da fantasia. Daí a importância que tem a leitura por parte dos pais na fase em que a criança não lê. Esta, ao ouvir, adquire hábitos de ouvir e aprende a concentrar-se e a imaginar novos mundos ainda não petrificados.

Ela gosta de figurações (imitações), aventuras, lendas, histórias. A imaginação viva, fora das sequências de imagens televisivas, torna-se na matriz da criatividade fazendo da criança autor e não apenas espectador consumidor. Se lhe dermos oportunidade, com o tempo, desenvolvem até o teatro que começa com o jogo em que uma criança faz de médico outra de paciente.

Não se trata só de desenvolver as capacidades da linguagem, da palavra, do som e do ritmo, de desenvolver unilateralmente as capacidades cognitivas. Pelo menos até aos seis anos é importantíssimo o desenvolvimento da fantasia, do jogo, do teatro, da música. Nas primeiras fases (até aos dez anos) não são oportunos livros de intenção crítica ou política.

Uma atitude motivadora da leitura dá-se naturalmente começando já muito cedo. Para isso há as mais diferentes estratégias. Uma delas seria ir à biblioteca com a criança deixando-a a ela escolher os livros que leva para casa. Não é conveniente levar muitos livros de cada vez, mesmo quando se trata de livros só de imagens, porque, em geral, a criança precisa de ver e ouvir muitas vezes as mesmas coisas. A sua fantasia é muito criativa acrescentando outras cenas às que vê.

É muito importante estar-se atento para se descobrirem os interesses e tendências da criança. Só assim pode ser fomentada com grande eficiência. Cada criança é ela mesma e tem algo específico a trazer ao mundo. O que é bom para uma ou para os adultos pode tornar-se em desmotivação para a outra.

É muito importante a atenção ao desenvolvimento motor, emocional, cognitivo e psicológico da criança. A escola reduz muitas vezes a criança a um saco aberto, em que se lançam muitas coisas menos as próprias, tudo à custa do desenvolvimento da própria personalidade; tudo na construção dum mundo só dos outros, dum mundo estandardizado, um mundo fábrica.

A competência para leitura deve ser integrada na competência para a vida, começando já no ventre materno. Uma mãe que canta, um pai que fala e acaricia o ventre da esposa já começa a fomentar as competências auditivas e emocionais da criança.

Cada idade tem as suas preferências e interesses. Estes, mais que ditados de fora terão de ser descobertos em sintonia e ressonância com a criança e com o adolescente. Importante é que a criança ganhe o prazer da leitura, sendo menos importante o assunto da leitura. Então, mais tarde, os tempos de leitura já não se revelarão como concorrentes dos tempos livres de escola.

As crianças lêem, mas precisam de livros adequados que respondem aos seus interesses pessoais e à sua escolha, como mostra a série de livros de Harry Potter que entusiasmam crianças a lê-los com ânsia já a partir dos dez anos. Constato, em casa, que o último livro de 800 páginas é lido pelo filho de 15 anos numa semana.

Uma casa sem uma estante de livros é já um testemunho de pobreza espiritual. Uma casa com livros tem muitas janelas abertas ao mundo.

António da Cunha Duarte Justo
antoniocunhajusto@googlemail.com
http://antonio-justo.blogspot.com

02-02-2010
(1) O povo judeu é, certamente, a gente que mais se integra nas sociedades onde vivem, mantendo, ao mesmo tempo na sociedade de acolhimento, uma exigência universal e humana. Vivem nos povos para os povos, sempre a caminho de libertação. Têm muito respeito pela família e pelo povo sob um tecto de valores maiores..Se observamos a nossa cultura, estão presentes em todos os factores relevantes do seu desenvolvimento não só cultural como tecnológico. A família judia revela-se no melhor viveiro de inteligência e comunicação. A criança dedica-se já muito cedo à leitura toda ela integrada num mundo de histórias e lendas que lhe possibilitam andar sempre um passo à frente em relação a muitos outros. Não chega só o treino da inteligência, é preciso também o treino da vontade e um objectivo na vida: A ortopraxia! Para isso é necessária a consciência de povo diferenciado mas não apenas de classes sociais. Cada pessoa, cada povo, cada cultura que se descubra a si mesmo mais facilmente contribuirá para o desenvolvimento harmonioso dum mundo plural mas uno.

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